Hoje escrevo em português porque o texto que me motivou a escrever este post está também em português, publicado no blog d’uma aluna minha. O post dela divide-se em duas partes, uma publicada originalmente num blog criacionista, a outra de sua própria autoria. O texto, cujo título é “Parabéns a Darwin?”, traz alguns pontos que merecem esclarecimentos, pois ambos os autores (o do texto original e a autora do blog que o republicou) parecem não compreender a teoria da evolução de Darwin. Discutamos primeiramente, pois, o texto do blog de Michelson Borges (o criacionismo.com.br).
Neste texto o argumento do autor é o seguinte: neste ano, além de se comemorar os 200 anos do nascimento de Darwin e os 150 anos da publicação de “A Origem das Espécies”, também se comemoram os 400 anos das primeiras observações astronômicas de Galileu. A comemoração ficou conhecida como “Ano Internacional da Astronomia 2009 “. O autor portanto relativiza a importância de Darwin em relação a Galileu, julgando este ser talvez mais importante que Darwin. Em suas palavras “Foi com Galileu, e não com Darwin, que o próprio método científico experimental nasceu”. Mais adiante, ele lamenta: “mas este é o ano da Astronomia e não de Galileu, o inventor do método científico…” Ao fim do texto, depois de questionar porque tais honrarias cedidas a Darwin não o foram também a outros grandes nomes da ciência, como Einstein, Newton ou o casal Curie, o autor conclui: ”me parece que os proponentes do naturalismo filsosófico estão usando Darwin para promover sua ideologia da negação do sobrenatural. Deve ser isso.”
O argumento não é de todo ruim e talvez de facto devamos mais crédito a outros gigantes da ciência. Mas isso definitivamente não tira o mérito da obra de Darwin. No começo do texto o autor argumenta que
“a explicação dele [Darwin] para a variação entre os seres vivos de um grupo (seleção natural) é realmente uma boa idéia. Mas extrapolá-la para bilhões de anos no passado e afirmar que todos os seres vivos descendem de um ancestral comum ainda desconhecido, isso, sim, é ficção das boas.”
E fica por aí. Não dá nenhum argumento para dizer porque tal “extrapolação” (que na verdade está mais pra consequência prática) seria “ficção das boas”. Ok, falamos de um blog e não de um artigo científico, mas o uso de tal tipo de frase de efeito não esclarece em nada seu ponto. Pelo contrário, só contribui pra que aqueles que acham a idéia da evolução absurda (por não compreendê-la, em sua maioria) se sintam à vontade com o que ele vem a dizer depois.
De maneira geral, a crítica é em si interessante, como já afirmei. No entanto, o autor acaba se utilizando de alguns argumentos bastante falhos pra quem quer advogar tanta admiração pela ciência. Um deles, por exemplo, é dizer que Newton, Pasteur e Pascal eram cristãos. No que ser cristão torna uma pessoa melhor cientista? Tal argumento é extremamente falacioso e serve apenas pra arrebanhar cristãos criacionistas incautos. O autor deveria esclarecer, por exemplo, que as crenças de Newton seriam mal vistas por muitos cristãos de hoje, a começar pelo fato de Newton negar a trindade. Claro, Newton acreditava firmemente em Deus como criador do mundo, e é essa a parte que interessa aos criacionistas.
Passemos pois agora ao comentário da autora do blog, que reproduziu o texto do Criacionismo.com.br. Ela endossa o argumento do primeiro autor, dizendo haver um apelo dos evolucionistas à mídia para que o evolucionismo tenha apoio popular já que, segundo ela, “o apoio dos cientistas está cada vez mais sendo perdido para o Design Inteligente”. Novamente, não falamos aqui de um artigo científico, mas eu gostaria de referência. Ela afirma em seguida que o evolucionismo fazia sentido no século XIX, mas que hoje, com “inúmeras descobertas recentes”, o evolucionismo tem caído para o status de postura filosófica. Again, fontes seriam de bom tom. Se de facto as coisas são como ela argumenta, eu acredito que os grandes meios de divulgação científica já nos estariam avisando “vejam só, estávamos errados, o certo mesmo é o Design Inteligente”. E aí temos um ponto que eu gostaria de discutir. Uma das características mais valiosas da ciência é o fato dela ser auto-corretiva. Isso significa que, ao menos idealmente, a ciência “não tem rabo preso”, seja com Darwin, com Newton ou com quem quer que seja. Newton revolucionou a física, mas quando se percebeu que seu modelo não dava conta de alguns fenômenos, a ciência andou e aceitou-se as limitações de seu modelo. Assim será com o modelo de Darwin: quando a ciência perceber que o modelo é inválido, certamente o descartará. Acontece que, até agora, não se encontrou razão para tanto. O mesmo não se pode dizer do Design Inteligente. O DI não é ciência a começar por esse fato: ele tem “o rabo preso”. O rabo do DI está preso à noção da criação do mundo por Deus, em especial tal como descrita na Bíblia, de preferência. E se um dia se encontrarem evidências contrárias ao que prevê o DI (como se já não tivessem sido encontradas), o DI não é descartado ainda assim. Sempre e sempre se busca uma hipótese ad hoc pra salvar a Deus na brincadeira, e isso é exatamente o contrário do que a ciência preconiza.
Mais adiante no texto, a autora comenta a capa de uma edição da New Scientist com o título “Darwin was wrong”, sem se preocupar em explicar o porquê ou como Darwin estava errado. Quem lê a matéria vê que esta na verdade diz que Darwin provavelmente estava errado em sua noção de árvore da vida, porque ele acreditava que a troca de material genético se daria apenas no sentido vertical, isto é, de geração para geração, quando na verdade se descobriu que muito material genético é trocado na horizontal, entre espécies duma mesma geração. Diga-se de passagem, tal troca é muito mais frequente entre seres unicelulares, isto é, entre os animais do nosso porte a idéia da árvore ainda teria um papel importante. Assim, mais adiante o texto afirma que dois dos pesquisadores que propõem a nova noção “are at pains to stress that downgrading the tree of life doesn’t mean that the theory of evolution is wrong – just that evolution is not as tidy as we would like to believe”. Ou seja, ninguém está negando a teoria da evolução. Aliás, o texto faz referências o tempo todo a datações de vida em milhões de anos, coisa que é sabido não agradar a criacionistas adeptos da teoria da Terra jovem. Com isso, me entristece ver que a própria autora do blog cai na falácia do primeiro autor, de usar frases de efeito (talvez não intencionalmente) que causam muito calor, mas pouca luz.
Finalizando, gostaria apenas de comentar uma falha muito comum cometida pela autora ao dizer que o evolucionismo ”afirma que todos os seres vivos evoluíram ao acaso”. Quantos professores de biologia já não perderam os cabelos em explicar tanto que não viemos do macaco quanto que o “acaso” não explica nada em ciência. O conceito de “seleção natural” já deveria deixar isso implícito: se há uma seleção, deve haver um critério. E o critério é a adaptação ao ambiente, que nunca muda por acaso. O contrário de “acaso” não é “intenção”, no entanto, e inferir um projetista por trás do processo é tão errado quando afirmar que ele acontece “por acaso”.
Enfim, peço perdão pela falta de estrutura do texto, escrevo sem muito tempo nem muito cuidado. Mas recomendo a qualquer leitor interessado na controvérsia criacionismo x evolucionismo a dar uma lida no site TalkOrigins. Lá se encontra muita coisa sobre ambas as posturas.